terça-feira, 17 de dezembro de 2013

UM PRESENTE INESPERADO...

Embora eu ache que o "Natal" deva ser 365 dia por ano, e não apenas 24 e 25 de Dezembro, que amar o próximo e a solidariedade é uma "obrigação" diária , porque os Sem Abrigo e as pessoas carenciadas são cada vez mais...deixo-vos um conto de Natal, com o desejo sincero de FESTAS FELIZES!

"Chovera toda a noite. As ruas eram autênticas ribeiras, arrastando na enxurrada toda a espécie de detritos. Os carros passando a alta velocidade espalhavam, indiferentes, água suja sobre os transeuntes, molhando-os e sujando-os.
 O Pedrito seguia também naquela onda humana, sem destino. Tinha-se escapulido da barraca, onde vivia. Os pais tinham saído cedo para o trabalho, ainda ele dormia.
Ele desceu à cidade, onde tudo o deslumbrava. Todo aquele movimento irregular, caótico, frenético. Os automóveis em correrias loucas, as gentes apressadas nos seus afazeres. E lá seguia pequenino, entre a multidão, numa cidade impávida, indiferente, cruel mesmo.
Passava em frente às pastelarias, olhava para as montras recheadas de doçuras, ele comera de manhã um bocado de pão duro e bebera um copo de água. Vinha-lhe o aroma agradável dos bolos, o seu pequeno estômago doía-lhe com fome!
Chovia agora mansamente, uma chuva gelada, levando uma cidade onde se cruzavam o fausto, a vaidade, o ter tudo, os embrulhos enfeitados das prendas, com a dor a melancolia, o sofrimento, o ter nada e no meio uma criança triste e com fome!
Mas o Pedrito gostava era de ver as lojas dos brinquedos. Lá estavam os carros de corrida, o comboio, os bonecos, enfim todo um mundo maravilhoso que ele vivia, esborrachando o nariz sujo contra a montra. Lá dentro ia grande azáfama nas compras de Natal. E os carros de corrida, o comboio, os bonecos eram embrulhados em papeis bonitos para irem fazer a alegria de outros meninos.
Uma lágrima descia, marcando-lhe um sulco na sujidade da carita. Eis que os seus olhos reparam num menino, que de lá dentro o olhava.
 Desviou-se envergonhado. Não gostava que o vissem chorar. E afastou-se devagar, pensando nos meninos que tinham Natal, guloseimas e carros de corrida para brincar. Ele nada tinha, além da fome e a ânsia de ser feliz e viver como os outros. Pensou no Natal, no Menino Jesus, que diziam que era amigo das crianças a quem dá tudo. Por que é que a ele o Jesus Pequenino do presépio nada dava?
De repente, uma mãozinha tocou-lhe no ombro. Voltou-se assustado. Era o menino da loja que lhe metia na mão um embrulho bonito. À frente a mãe, carregada de embrulhos, fazia de conta que nada via.
Abriu-o e deslumbrado viu um carro de corridas, encarnado, brilhante, como os olhos do menino que lá ao longe lhe acenava. Ficou um momento sem saber o que fazer, mas depois largou a correr, mostrando bem alto a sua prenda de Natal.
Parara de chover. O sol tentava romper as nuvens escuras, lançando um raio de luz brilhante e quente sobre o Pedrito, que ria feliz, numa carita sulcada pelas lágrimas."



9 comentários:

  1. Linda esta história de Natal, infelizmente é intemporal...tanto pode ter 40 anos como passar-se no Natal deste ano.
    Beijinhos Amiga.

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  2. Olá, Teresa
    Muito comovente este conto de Natal!
    O Pedrito foi bafejado pela sorte. Oxalá acontecsse o mesmo a tantos, tantos, meninos (e meninas) esquecidos de todos e de tudo...

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    Mariazita
    (Link para o meu blog principal)

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  3. O carrinho vermelho era um Ferrari. Durante toda a meninice e sempre que o deixavam, brincava com o carrinho. Depois guardou-o religiosamente. Até que um dia, já adolescente, viu um Ferrari verdadeiro, vermelho como o seu. Passou a sonhar com um Ferrari, até que um dia...

    (O resto ficará, quem sabe, para outro conto de Natal).

    Bons poemas e contos e um bjo. de Bom Natal.

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  4. Teresa,
    O conto é lindo, termina bem para a época, mas quantos Pedritos não terá o Mundo e até mesmo só o nosso Portugal? Faz-me sentir mal sempre, mas agora é muito pior, estar à mesa e saber que noutros lugares, muitas vezes, nem a própria mesa existe. Para mim tudo o que é falta do essencial põe-me num estado de tristeza.
    De qualquer modo, desde que o mundo é mundo que a história se repete e não tenhamos dúvidas que se repetirá por toda a vida.
    Grande beijinho, um Natal feliz e com muita saúde.

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  5. Na impossibilidade de dirigir a cada amiga/o uma mensagem de Natal personalizada, escrevi umas palavras muito simples mas bem significativas do meu sentir:

    “Neste Natal gostaria de trazer-te:
    O verde da árvore – a cor da Esperança;
    E, das bolas coloridas:
    - O vermelho – a cor do meu Amor fraterno;
    - O azul – a cor da suavidade dos Anjos;
    - O dourado – a cor da prosperidade que te desejo;
    - O roxo – a tristeza que sinto quando não te vejo;
    - O branco – A Paz que quero para a tua vida.
    No tanger dos sinos ouve a minha voz pedindo protecção para ti e toda a tua família.
    Seja onde for que te encontres deixa-me ser um pouco do teu Natal.
    Mas… acima de tudo, desejo que, na tua noite de Natal, o “Menino” não tenha que perguntar:
    - Então e eu? - (V. minha postagem de 27/12/2009 – NATAL DE QUEM?)

    Mil beijos natalícios
    Mariazita
    (Link para o meu blog principal)

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  6. Comecei a ler este conto com displicência, do género "vamos lá fazer o sacrifício de ler isto até ao fim..." Só que, aos poucos, fui-me envolvendo na história, e até eu me senti a mirar uma montra cheia de coisas lindas. E senti a amargura que aquele menino franzino e e sujo sentiu. É triste ser-se deserdado da fortuna. Felizmente que há histórias com final feliz.
    Bem hajas pela partilha!

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  7. num natal real, "à séria" deitavam-lhe logo a mão e ía para a esquadra acusado de ter roubado o brinquedo. alguma vez alguém assim sujo e com mau aspecto podia ter dinheiro para tal mimo? e se tivesse é porque o roubara a alguém. assim funciona esta sociedade..ou como alguém já lhe chamou: Zoociedade.

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  8. num natal real, o pedrito seria logo travado na corrida e ia parar a esquadra, acusado de ter roubado o carro. pois como é que alguém com aquele aspecto o podia ter de outra forma que não roubando-o? assim é a sociedade em que vivemos: torna inverosímeis histórias que acabem em bem. ou como alguém já lhe chamou: Zoociedade humana.

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